Em resumo: O comissionamento FAT (Factory Acceptance Test) e SAT (Site Acceptance Test) é a engrenagem que transforma "instalado" em "aceito". Em projetos de integração audiovisual, ele protege o contratante contra retrabalho, ancora marcos de pagamento e cria um trilho de auditoria objetivo. Este guia traz protocolos práticos por subsistema, modelos de checklist e o vínculo com o cronograma financeiro.
Em projetos de integração audiovisual de médio e grande porte — salas de controle, plenárias, centros de operação — a diferença entre uma entrega tranquila e um projeto que se arrasta por meses costuma estar em um único processo: o comissionamento estruturado.
FAT e SAT não são burocracia. São instrumentos técnicos e contratuais que organizam a entrega em duas fases controladas: o que precisa funcionar antes do equipamento sair da fábrica/integrador, e o que precisa funcionar depois de instalado no ambiente final.
O que são FAT e SAT em projetos AV
Os termos vêm da indústria de automação e foram adotados pela integração audiovisual madura. A definição prática é simples.
Factory Acceptance Test (FAT)
Conjunto de testes executados na bancada do integrador (ou na fábrica do fornecedor), antes do envio para o local final. O objetivo é validar que o sistema completo — programação de automação, configuração de DSP, layouts de videowall, presets de câmeras, integrações com plataforma de videoconferência — funciona como projetado, em ambiente controlado.
Site Acceptance Test (SAT)
Conjunto de testes executados no ambiente final de uso, após instalação completa. Valida a integração com a infraestrutura local (rede, energia, climatização, acústica, iluminação) e a operação real pelos usuários.
Ponto-chave: O FAT reduz o risco técnico antes que o equipamento atravesse o país. O SAT certifica que a infraestrutura e o ambiente reais sustentam a operação. Pular um deles é assumir um risco que normalmente custa caro.
Por que FAT e SAT importam para o contratante
Quatro motivos práticos.
Reduz retrabalho em campo
Problemas de programação, configuração ou compatibilidade descobertos em campo custam 5 a 10 vezes mais para corrigir do que em bancada. FAT antecipa esses problemas onde o ambiente está controlado e os recursos técnicos estão concentrados.
Protege o cronograma financeiro
Vincular pagamentos ao aceite formal de FAT e SAT cria gatilhos objetivos. Sem comissionamento estruturado, o aceite vira negociação subjetiva — e disputa.
Cria trilha de auditoria
Para órgãos públicos, o relatório de FAT/SAT documenta o que foi testado, com qual instrumentação, em qual data, com qual resultado. É o material que sustenta o recebimento definitivo perante o controle interno.
Estabelece linha-base operacional
Métricas medidas no SAT (latência, RT60, STIPA, NC, ΔE, throughput de rede) viram referência para fiscalização do contrato de manutenção subsequente. Quando o sistema degrada, há um ponto de comparação.
Critérios objetivos de FAT por subsistema
O FAT eficaz é checklist com critérios mensuráveis, não inspeção visual.
Subsistema de vídeo
- Roteamento de todas as fontes para todos os destinos previstos no projeto;
- Resolução nativa em todas as saídas, sem upscaling/downscaling indevido;
- Latência fim-a-fim dentro do especificado (tipicamente abaixo de 1 frame para AV-over-IP profissional);
- Layouts de videowall — todos os presets de tela validados visualmente;
- Sincronia entre saídas em videowall — sem tearing ou descompasso entre painéis;
- Testes de fail-over de processador, quando há redundância.
Subsistema de áudio
- Roteamento de todas as fontes para todos os destinos no DSP;
- Cenas e presets de DSP testados (reunião, plenária, conferência, broadcast);
- Verificação de níveis: ruído de fundo, headroom, limiares de gating;
- AEC (cancelamento de eco) validado com loopback;
- Latência fim-a-fim — crítica para sincronia A/V e áudio sobre IP;
- Falar mais sobre áudio profissional para auditórios.
Automação e controle
- Cada botão da interface (touch panel, app móvel) executa a ação esperada;
- Cenas de automação completas — "iniciar reunião", "modo broadcast", "fim de sessão";
- Integração com sistemas externos — calendário (Outlook/Google), reserva de sala, controle de iluminação;
- Comportamento em falha — o que acontece quando um componente está offline.
Rede e cibersegurança
- Endereçamento IP conforme plano de rede entregue ao cliente;
- Segmentação VLAN validada — equipamentos AV isolados de rede corporativa quando aplicável;
- Hardening — senhas padrão alteradas, serviços desnecessários desativados;
- Atualizações de firmware aplicadas;
- Acesso remoto, quando previsto, autenticado e auditável.
Plano de SAT — testes em ambiente final
O SAT é executado após instalação completa e exige instrumentação adequada.
Acústica
- Medição de RT60 nos pontos críticos da sala;
- STIPA (índice de inteligibilidade de fala) na cobertura de áudio;
- NC (Noise Criterion) com sistemas de climatização ligados;
- Verificação de retorno acústico em ambientes com captação ao vivo.
Vídeo no ambiente real
- Iluminação ambiente — videowall e displays legíveis em todas as condições previstas;
- Câmeras — enquadramento, balanço de branco e exposição em condições reais de luz;
- Reflexos e ofuscamento — superfícies de exibição não comprometidas por janelas ou luminárias.
Operação por usuários reais
- Pelo menos uma sessão completa simulada — reunião, audiência, sessão legislativa — com usuários reais;
- Validação dos cenários de uso descritos no termo de referência;
- Treinamento dos operadores e validação de manual de operação.
Estresse e contingência
- Falha simulada de componente crítico — switcher, processador, ponto de acesso de áudio;
- Comportamento esperado: degradação controlada, não falha total;
- Testes de queda de energia (com nobreak/UPS), se aplicável.
Vínculo entre aceite e cronograma financeiro
O comissionamento ganha força quando ancorado ao contrato. A estrutura mais comum em contratos federais.
| Marco | Pagamento típico | Condicionante |
|---|---|---|
| Mobilização e projeto executivo | 10–20% | Aprovação do projeto pela fiscalização |
| Aprovação de FAT | 30–40% | Relatório de FAT aprovado e assinado |
| Conclusão de instalação | 20–30% | Recebimento provisório, pré-SAT |
| Aprovação de SAT | 15–25% | Relatório de SAT aprovado, recebimento definitivo |
| Operação assistida (60–90 dias) | 5–10% | Conclusão da operação assistida sem incidentes graves |
Erros comuns no comissionamento de projetos AV
FAT virtual sem rigor
Apresentação remota de tela, sem instrumentação real, não é FAT — é demonstração comercial. FAT exige bancada montada e checklist objetivo.
SAT executado pelo próprio integrador sem testemunhas
O órgão precisa designar fiscal técnico capacitado para acompanhar o SAT. Sem testemunha qualificada, o aceite vira protocolo.
Critérios subjetivos no checklist
"Áudio de boa qualidade" não é critério. STIPA ≥ 0.62 nas posições medidas é critério.
Documentação fraca
Relatório de SAT precisa conter: data, instrumentação usada, resultados numéricos, fotos da configuração, assinaturas. Sem isso, o documento não sustenta auditoria.
Modelo de termo de aceite
Um termo de aceite minimalista deve conter: identificação do contrato, objeto, escopo testado, instrumentação utilizada, lista de critérios verificados com resultados (passou/não passou), pendências (se houver), responsáveis pelo aceite, data e assinaturas. A Netfocus disponibiliza modelo editável mediante solicitação.
Veja também: As fases de um projeto AV turnkey e como montar uma proposta técnica para licitação audiovisual.
Quer um plano de FAT/SAT para seu projeto?
A Netfocus elabora plano de comissionamento detalhado por subsistema, com instrumentação, critérios objetivos e modelo de relatório aprovado em órgãos federais.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre FAT e SAT?
FAT (Factory Acceptance Test) é o teste executado na bancada do integrador antes do envio para o local final, em ambiente controlado. SAT (Site Acceptance Test) é o teste executado no ambiente final, após instalação completa, validando a integração com a infraestrutura real do órgão. FAT antecipa risco técnico; SAT certifica a operação real.
FAT é obrigatório em projetos AV para órgãos públicos?
Não há obrigação legal genérica, mas é prática consolidada em projetos de integração audiovisual de médio e grande porte. Inclui-se no termo de referência como condicionante do recebimento provisório, especialmente em soluções turnkey para salas de controle, plenárias e centros de operação.
Quem deve participar do FAT e do SAT?
FAT: equipe técnica do integrador e fiscal técnico designado pelo órgão (presencial ou remoto qualificado). SAT: equipe do integrador, fiscal técnico, gestor do contrato e, idealmente, usuários-chave do sistema. Em ambos, é recomendável ata com assinaturas.
O que acontece se o FAT reprovar?
O integrador deve corrigir as não-conformidades e reagendar o teste, sem custo adicional ao contratante e sem impacto no marco de pagamento até a aprovação. Cláusula contratual deve prever esse mecanismo claramente.
Como vincular FAT e SAT ao pagamento?
Estrutura comum: 30–40% do valor liberado após aprovação do FAT (recebimento provisório), 15–25% após aprovação do SAT (recebimento definitivo) e 5–10% após período de operação assistida. Cláusulas específicas devem estar no contrato.
Quais instrumentos são necessários no SAT?
Para áudio: analisador de espectro, sonômetro classe 1, gerador de teste STIPA. Para vídeo: colorímetro, padrões de teste, instrumento de medição de luminância. Para rede: ferramenta de análise de tráfego e medição de latência. A lista exata depende do escopo do projeto.
FAT virtual ou remoto vale como FAT formal?
Pode valer, desde que: bancada física esteja montada e operacional; transmissão permita observação clara dos testes; fiscal técnico do órgão possa solicitar verificações específicas em tempo real; relatório seja assinado eletronicamente. FAT virtual sem bancada montada é apenas demonstração comercial.
Quanto tempo dura um FAT/SAT típico?
FAT em projeto médio leva 1 a 3 dias úteis. SAT, dependendo do escopo, leva 2 a 5 dias úteis após conclusão da instalação. Em plenárias legislativas e centros de operação, ambos podem se estender mais devido à complexidade dos cenários a validar.