Em resumo: O comissionamento FAT (Factory Acceptance Test) e SAT (Site Acceptance Test) é a engrenagem que transforma "instalado" em "aceito". Em projetos de integração audiovisual, ele reduz retrabalho em campo, ancora os marcos de pagamento ao recebimento provisório e definitivo e cria uma trilha de auditoria objetiva para o fiscal do contrato. Este guia traz os critérios por subsistema, o checklist de preparação do órgão, a redação da cláusula no termo de referência e um cenário hipotético completo.
Em projetos de integração audiovisual de médio e grande porte — salas de controle, plenárias, centros de operação — a diferença entre uma entrega tranquila e um projeto que se arrasta por meses costuma estar em um único processo: o comissionamento estruturado.
FAT e SAT não são burocracia. São instrumentos técnicos e contratuais que organizam a entrega em duas fases controladas: o que precisa funcionar antes de o equipamento sair da fábrica ou da bancada do integrador, e o que precisa funcionar depois de instalado no ambiente final.
O que são FAT e SAT em projetos AV
Os termos vêm da indústria de automação e foram adotados pela integração audiovisual madura. A definição prática é simples.
Factory Acceptance Test (FAT)
Conjunto de testes executados na bancada do integrador (ou na fábrica do fornecedor), antes do envio para o local final. O objetivo é validar que o sistema completo — programação de automação, configuração de DSP, layouts de videowall, presets de câmeras, integrações com plataforma de videoconferência — funciona como projetado, em ambiente controlado.
Site Acceptance Test (SAT)
Conjunto de testes executados no ambiente final de uso, após instalação completa. Valida a integração com a infraestrutura local (rede, energia, climatização, acústica, iluminação) e a operação real pelos usuários.
Onde o comissionamento se encaixa no contrato público
A Lei 14.133/2021 mantém a lógica de recebimento em duas etapas — provisório e definitivo — que já existia na Lei 8.666/93. FAT e SAT são a tradução técnica dessa lógica: o FAT aprovado sustenta o recebimento provisório do fornecimento; o SAT aprovado, somado à operação assistida, sustenta o recebimento definitivo. Sem esses testes descritos no termo de referência, o fiscal fica sem critério objetivo para aceitar ou recusar. As diferenças entre as duas etapas estão detalhadas em recebimento provisório e definitivo em contratos AV.
Ponto-chave: O FAT reduz o risco técnico antes que o equipamento atravesse o país. O SAT certifica que a infraestrutura e o ambiente reais sustentam a operação. Pular um deles é assumir um risco que normalmente custa caro.
Por que FAT e SAT importam para o contratante
Quatro motivos práticos.
Reduz retrabalho em campo
Problemas de programação, configuração ou compatibilidade descobertos em campo custam uma ordem de grandeza a mais para corrigir do que em bancada: envolvem deslocamento, janela de acesso ao prédio, usuários esperando e, muitas vezes, reabertura de infraestrutura já fechada. O FAT antecipa esses problemas onde o ambiente está controlado e os recursos técnicos estão concentrados.
Protege o cronograma financeiro
Vincular pagamentos ao aceite formal de FAT e SAT cria gatilhos objetivos. Sem comissionamento estruturado, o aceite vira negociação subjetiva — e disputa.
Cria trilha de auditoria
Para órgãos públicos, o relatório de FAT/SAT documenta o que foi testado, com qual instrumentação, em qual data, com qual resultado. É o material que sustenta o recebimento definitivo perante o controle interno e dá ao fiscal técnico do contrato base documental para atestar a nota fiscal.
Estabelece linha-base operacional
Métricas medidas no SAT (latência, RT60, STIPA, NC, ΔE, throughput de rede) viram referência para fiscalização do contrato de manutenção subsequente. Quando o sistema degrada, há um ponto de comparação.
Critérios objetivos de FAT por subsistema
O FAT eficaz é checklist com critérios mensuráveis, não inspeção visual.
Subsistema de vídeo
- Roteamento de todas as fontes para todos os destinos previstos no projeto;
- Resolução nativa em todas as saídas, sem upscaling/downscaling indevido;
- Latência fim a fim dentro do especificado (tipicamente abaixo de 1 frame para AV-over-IP profissional);
- Layouts de videowall — todos os presets de tela validados visualmente;
- Sincronia entre saídas em videowall — sem tearing ou descompasso entre painéis;
- Testes de fail-over de processador, quando há redundância.
Subsistema de áudio
- Roteamento de todas as fontes para todos os destinos no DSP;
- Cenas e presets de DSP testados (reunião, plenária, conferência, broadcast);
- Verificação de níveis: ruído de fundo, headroom, limiares de gating;
- AEC (cancelamento de eco) validado com loopback;
- Latência fim a fim — crítica para sincronia A/V e para redes de áudio sobre IP;
- Redundância da rede de áudio (primária/secundária), quando prevista, testada com desconexão física de um dos enlaces.
Automação e controle
- Cada botão da interface (touch panel, app móvel) executa a ação esperada;
- Cenas de automação completas — "iniciar reunião", "modo broadcast", "fim de sessão";
- Integração com sistemas externos — calendário corporativo, reserva de sala, controle de iluminação;
- Comportamento em falha — o que acontece quando um componente está offline.
Rede e cibersegurança
- Endereçamento IP conforme plano de rede entregue ao cliente;
- Segmentação VLAN validada — equipamentos AV isolados de rede corporativa quando aplicável;
- Hardening — senhas padrão alteradas, serviços desnecessários desativados;
- Atualizações de firmware aplicadas;
- Acesso remoto, quando previsto, autenticado e auditável.
Pré-requisitos para o FAT ter valor probatório
Um FAT só sustenta o recebimento provisório se quatro condições forem atendidas; sem elas, é ensaio interno do integrador, não evidência para o órgão.
- Equipamento do contrato, não equivalente: a bancada é montada com as unidades que serão entregues, com números de série registrados no relatório;
- Programação congelada: código de automação, presets de DSP e layouts testados são os mesmos que serão instalados — alteração posterior exige registro e reteste do item afetado;
- Checklist entregue antes: o fiscal recebe o roteiro com antecedência, com critério passa/não passa por item, e pode acrescentar verificações;
- Registro objetivo: fotos da bancada, capturas de tela das configurações e valores medidos, não apenas "OK" em planilha.
Plano de SAT — testes em ambiente final
O SAT é executado após instalação completa e exige instrumentação adequada. Os três indicadores acústicos abaixo estão explicados em RT60, STIPA e NC na prática.
Acústica
- Medição de RT60 nos pontos críticos da sala;
- STIPA (índice de inteligibilidade de fala) na cobertura de áudio;
- NC (Noise Criterion) com sistemas de climatização ligados;
- Verificação de retorno acústico em ambientes com captação ao vivo.
Vídeo no ambiente real
- Iluminação ambiente — videowall e displays legíveis em todas as condições previstas;
- Câmeras — enquadramento, balanço de branco e exposição em condições reais de luz;
- Reflexos e ofuscamento — superfícies de exibição não comprometidas por janelas ou luminárias.
Operação por usuários reais
- Pelo menos uma sessão completa simulada — reunião, audiência, sessão legislativa — com usuários reais;
- Validação dos cenários de uso descritos no termo de referência;
- Treinamento dos operadores e validação de manual de operação.
Estresse e contingência
- Falha simulada de componente crítico — switcher, processador, ponto de acesso de áudio;
- Comportamento esperado: degradação controlada, não falha total;
- Testes de queda de energia (com nobreak/UPS), se aplicável.
Checklist de preparação do órgão antes do SAT
Boa parte dos SATs que atrasam não falha pelo sistema AV, mas porque o ambiente não estava pronto. Cada item abaixo, quando ausente, vira "pendência do contratante": não penaliza o integrador, mas desloca o recebimento e o pagamento.
- Energia definitiva e aterramento: circuitos dedicados energizados pelo quadro final, não por extensão de obra; aterramento medido e documentado;
- Rede pronta: VLANs criadas, portas configuradas, endereçamento liberado pela TI do órgão e regras de firewall aplicadas;
- Climatização em regime: o ar-condicionado operando na condição normal, porque a medição de NC e a temperatura dos racks dependem dele;
- Obra civil concluída: forro fechado, piso acabado, pintura seca e limpeza fina feita — poeira em ambiente com painel LED ou projetor é dano, não incômodo;
- Mobiliário posicionado: mesas, consoles e cadeiras no lugar definitivo, pois alteram a acústica e o enquadramento das câmeras;
- Iluminação na condição de operação: luminárias, dimerização e cortinas instaladas, para validar leitura do videowall e exposição das câmeras na condição real;
- Pessoas e agenda: fiscal técnico, gestor do contrato e usuários-chave com data reservada e acesso ao prédio garantido.
Na Netfocus, a prática que mais reduz atrito é enviar esse checklist com antecedência e vistoriar a prontidão do local antes de mobilizar a equipe de SAT.
Vínculo entre aceite e cronograma financeiro
O comissionamento ganha força quando ancorado ao contrato. A estrutura abaixo é ilustrativa: os percentuais variam com o objeto e com a proporção entre equipamentos e serviços, e devem ser fixados no termo de referência e no contrato.
| Marco | Pagamento típico | Condicionante |
|---|---|---|
| Mobilização e projeto executivo | 10–20% | Aprovação do projeto pela fiscalização |
| Aprovação de FAT | 30–40% | Relatório de FAT aprovado e assinado |
| Conclusão de instalação | 20–30% | Recebimento provisório, pré-SAT |
| Aprovação de SAT | 15–25% | Relatório de SAT aprovado, recebimento definitivo |
| Operação assistida (60–90 dias) | 5–10% | Conclusão da operação assistida sem incidentes graves |
Reteste, pendências e operação assistida
Três regras evitam que a tabela acima vire disputa.
- Reteste sem custo e com prazo: item reprovado é corrigido e retestado dentro do prazo contratual, sem liberação do marco correspondente até a aprovação;
- Pendências classificadas por gravidade: bloqueante (função essencial não opera) impede o aceite; não bloqueante (estética, documentação, ajuste fino) gera lista com prazo e retenção proporcional, sem travar o recebimento;
- Operação assistida com critério de saída: o período termina quando o sistema opera sem incidente grave pelo intervalo fixado no termo de referência — nunca "até o órgão se sentir seguro".
Como escrever a cláusula de comissionamento no termo de referência
O erro mais comum não é omitir FAT e SAT do termo de referência, mas citá-los em uma linha ("a contratada realizará testes de aceitação") sem dizer o que isso significa. A cláusula precisa responder a oito perguntas.
- Quando: FAT antes da expedição dos equipamentos; SAT após a conclusão da instalação e da preparação do local;
- Quem participa e quem aprova: fiscal técnico designado, gestor do contrato e, no SAT, usuários-chave; a aprovação é ato do órgão, não do integrador;
- O que é medido: critérios por subsistema, com valor-alvo e tolerância, em anexo do TR;
- Com que instrumento: instrumentação mínima por tipo de medição e exigência de certificado de calibração válido;
- Como é registrado: formato do relatório, prazo de entrega após o teste e assinaturas exigidas;
- O que acontece se reprovar: regra de reteste, prazo e ausência de custo adicional;
- Como se liga ao pagamento: qual marco cada aprovação libera e qual retenção fica vinculada às pendências;
- Onde fica guardado: relatórios de FAT e SAT integram o as-built e o processo administrativo do contrato.
Quem não responde a essas perguntas no TR descobre, na hora do recebimento, que "teste de aceitação" significava coisas diferentes para cada lado.
Cenário hipotético: plenária com videowall, microfones e gravação
Imagine um órgão com uma plenária de médio porte: videowall central, microfone de mesa em cada assento, gravação das sessões, transmissão ao vivo e automação por painel de toque. O contrato prevê FAT, SAT e sessenta dias de operação assistida.
No FAT
A bancada do integrador reproduz o sistema completo. Durante o roteiro, a cena "encerrar sessão" desliga o videowall e a gravação, mas mantém os microfones abertos — erro que, em campo, só apareceria na primeira sessão real, com áudio vazando para a transmissão. A correção leva horas na bancada. O fiscal, acompanhando remotamente, solicita ainda um teste de falha do processador de vídeo, que confirma a comutação para a unidade redundante. Relatório assinado, marco de FAT liberado.
No SAT
Com a instalação concluída, a medição de NC com a climatização ligada fica acima do especificado em parte das posições. A origem é o difusor de ar sobre a mesa diretora, não o sistema AV: o item entra como pendência do contratante, não bloqueante, com prazo para correção pela manutenção predial e nova medição. STIPA, latência de vídeo e todas as cenas de automação passam; uma sessão simulada com os servidores reais valida a inscrição de oradores e a gravação. Recebimento provisório assinado, com a pendência listada.
Na operação assistida
O integrador acompanha as primeiras sessões reais, ajusta presets de câmera pedidos pela equipe de comunicação e entrega o manual de operação revisado. O difusor é corrigido e o NC, remedido e aprovado. Ao fim do período, sem incidente grave, o órgão emite o recebimento definitivo e libera o saldo. Em vez de meses de "ajustes finais" indefinidos, o contrato termina com pendências datadas, medidas e fechadas.
Erros comuns no comissionamento de projetos AV
FAT virtual sem rigor
Apresentação remota de tela, sem instrumentação real, não é FAT — é demonstração comercial. FAT exige bancada montada e checklist objetivo.
SAT executado pelo próprio integrador sem testemunhas
O órgão precisa designar fiscal técnico capacitado para acompanhar o SAT. Sem testemunha qualificada, o aceite vira protocolo.
SAT com a obra civil inacabada
Medir acústica com forro aberto, validar videowall sem a iluminação definitiva ou testar câmeras com mobiliário provisório produz números que não representam a sala final — e um relatório que precisará ser refeito ou, pior, que ninguém refaz.
Critérios subjetivos no checklist
"Áudio de boa qualidade" não é critério. STIPA ≥ 0,62 nas posições medidas — ou o valor-alvo que o termo de referência fixar — é critério. O mesmo vale para latência, luminância e uniformidade: número, tolerância e posição.
Sem regra de reteste nem classificação de pendências
Quando o contrato não diz o que acontece com um item reprovado, cada pendência vira negociação — aceite com ressalva de um lado, tudo corrigido antes de assinar do outro — e o pagamento fica parado enquanto se discute. A regra precisa existir antes do primeiro teste.
Documentação fraca
Relatório de SAT precisa conter: data, instrumentação usada, resultados numéricos, fotos da configuração, assinaturas. Sem isso, o documento não sustenta auditoria — nem serve de linha-base para a manutenção, que depende da documentação as-built para saber o que foi entregue.
Modelo de termo de aceite
Um termo de aceite minimalista deve conter: identificação do contrato, objeto, escopo testado, instrumentação utilizada, lista de critérios verificados com resultados (passou/não passou), pendências (se houver) com classificação e prazo, responsáveis pelo aceite, data e assinaturas. A Netfocus disponibiliza modelo editável mediante solicitação.
O termo é a última página de um dossiê que começa muito antes: o plano de comissionamento nasce na proposta técnica, é detalhado no projeto executivo e executado em fábrica e em campo. O encaixe de FAT e SAT no ciclo completo está em as fases de um projeto AV turnkey; para o fornecedor que precisa apresentar esse plano em licitação, a estrutura está em como montar uma proposta técnica para licitação audiovisual.
Quer um plano de FAT/SAT para seu projeto?
A Netfocus elabora plano de comissionamento detalhado por subsistema, com instrumentação, critérios objetivos e modelo de relatório aprovado em órgãos federais.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre FAT e SAT?
FAT (Factory Acceptance Test) é o teste executado na bancada do integrador antes do envio para o local final, em ambiente controlado. SAT (Site Acceptance Test) é o teste executado no ambiente final, após instalação completa, validando a integração com a infraestrutura real do órgão. FAT antecipa risco técnico; SAT certifica a operação real.
FAT é obrigatório em projetos AV para órgãos públicos?
Não há obrigação legal genérica, mas é prática consolidada em projetos de integração audiovisual de médio e grande porte. Inclui-se no termo de referência como condicionante do recebimento provisório, especialmente em soluções turnkey para salas de controle, plenárias e centros de operação.
Quem deve participar do FAT e do SAT?
FAT: equipe técnica do integrador e fiscal técnico designado pelo órgão (presencial ou remoto qualificado). SAT: equipe do integrador, fiscal técnico, gestor do contrato e, idealmente, usuários-chave do sistema. Em ambos, é recomendável ata com assinaturas. Sem representante do órgão presente, o teste vale como ensaio interno do integrador, não como aceite.
O que acontece se o FAT reprovar?
O integrador deve corrigir as não conformidades e reagendar o teste, sem custo adicional ao contratante e sem liberação do marco de pagamento até a aprovação. Pendências não bloqueantes podem ser listadas com prazo, sem impedir o recebimento provisório. A cláusula contratual deve prever esse mecanismo claramente.
Como vincular FAT e SAT ao pagamento?
Estrutura comum: 30–40% do valor liberado após aprovação do FAT (recebimento provisório), 15–25% após aprovação do SAT (recebimento definitivo) e 5–10% após período de operação assistida. Os percentuais são ilustrativos e variam com a proporção entre equipamentos e serviços no objeto. Cláusulas específicas devem estar no contrato.
Quais instrumentos são necessários no SAT?
Para áudio: analisador de espectro, sonômetro classe 1, gerador de teste STIPA. Para vídeo: colorímetro, padrões de teste, instrumento de medição de luminância. Para rede: ferramenta de análise de tráfego e medição de latência. A lista exata depende do escopo do projeto.
FAT virtual ou remoto vale como FAT formal?
Pode valer, desde que: bancada física esteja montada e operacional; transmissão permita observação clara dos testes; fiscal técnico do órgão possa solicitar verificações específicas em tempo real; relatório seja assinado eletronicamente. FAT virtual sem bancada montada é apenas demonstração comercial.
Quanto tempo dura um FAT/SAT típico?
FAT em projeto médio leva 1 a 3 dias úteis. SAT, dependendo do escopo, leva 2 a 5 dias úteis após conclusão da instalação. Em plenárias legislativas e centros de operação, ambos podem se estender mais devido à complexidade dos cenários a validar.
Publicado em · Revisado em